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Covid-19 e os danos no jornalismo desportivo: “Já estamos a pagar a fatura e vamos pagar mais”

  • Foto do escritor: DesPorto
    DesPorto
  • 8 de abr. de 2020
  • 5 min de leitura

Por: Roberta Vieira


Pedro Cunha, editor do Maisfutebol, é um dos milhares de infetados com Covid-19 em Portugal e conta todo o processo pelo qual está a passar. Também Eduardo da Silva, jornalista da Rádio Renascença, fala sobre a adaptação dos profissionais de comunicação a esta nova realidade.


Em dias em que o isolamento social é a palavra de ordem, o jornalismo continua a fazer a ponte de ligação entre os cidadãos. O surto de Covid-19 que teve origem na China, em finais de 2019, está agora a afetar todo o mundo, obrigando vários países a acionar Estados de Emergência e quarentenas obrigatórias. E, numa altura, em que a desinformação e as “fake news” podem ser facilmente propagadas, o quarto poder tem o dever de fazer prevalecer a verdade, o rigor e a transparência.


Num momento tão conturbado, e nunca antes vivido no século XXI, o desPorto foi tentar perceber como, e de que forma, é que as práticas jornalísticas foram afetadas por esta pandemia.


Apesar de o jornalismo não parar, e ser tão importante em momentos como este, os jornalistas não estão imunes ao novo coronavírus, mas, ainda assim, arriscam todos os dias para levar até si, leitor, toda a informação necessária. Foi o caso do jornalista, e um dos editores, do jornal desportivo Maisfutebol, Pedro Cunha.



Foto: Pedro Cunha em direto para a TVI24


O jornalista do desportivo online começou em regime de teletrabalho a 12 de março, tendo sentido os primeiros indícios de Covid-19 no dia 16 do mesmo mês. Os primeiros sintomas – dores musculares, cansaço e dores de cabeça – não pareciam indicar nada de grave, tendo sido recomendado ao jornalista combatê-los com paracetamol. Porém, nos dias seguintes, a medicação parecia não fazer efeito e os sintomas foram-se agravando com febres altas, dores de garganta e perda de olfato.


Finalmente, no dia 27 de março, Pedro Cunha fez o teste de despiste ao novo coronavírus, para o qual recebeu resultado positivo. Até hoje não sabe como ou onde foi infetado, até porque, para além da sua mulher que, também testou positivo, não conhece mais ninguém na mesma situação.


O desPorto falou com o jornalista uma semana após conhecer os resultados do teste e numa fase em que Pedro começara a traçar o caminho para a recuperação.


Estou muito melhor do que estive há semana passada, mas ainda bastante debilitado”, começou por contar o editor do Maisfutebol. “Posso dar um exemplo concreto: fui há bocadinho levar o lixo ao ecoponto, no regresso para casa tive de subir umas escadas e fiquei completamente ofegante. Eu pratico desporto três a quatro vezes por semana, não tenho qualquer tipo de limitação física e tudo isto é um bocado assustador… sentir-me como um senhor de 80 anos”.


O jornalista confessou ainda que, apesar de num primeiro momento ter contactado a Linha de Saúde24, e ter sido bem atendido, esperava outro tipo de acompanhamento por parte do Sistema Nacional de Saúde (SNS).


Se não tivesse conhecimentos na área da medicina, provavelmente as coisas não teriam corrido tão bem para os meus lados”, começou por dizer. “A linha de Saúde24, nos telefonemas que nós fizemos, disseram sempre a mesma coisa. Para já nunca falamos com nenhum médico, foram sempre enfermeiros e as indicações eram ficar em casa, fazer paracetamol e controlar os sintomas, se piorar muito para ligarmos ou dirigirmo-nos a uma urgência”.


Agora, numa altura em que aguarda para realizar os dois testes que o permitirão sair das listas de infetados, o jornalista desportivo conta ainda como as suas rotinas e práticas de trabalho foram afetadas pelo coronavírus, antes de saber que estava infetado.


No dia 12 já estávamos todos a fazer teletrabalho e faz toda a diferença não estar numa redação a trocar ideias. A motivação é diferente, o entusiasmo é outro, já para não falar na falta de produto. Nós deixamos de ter completamente aquilo que é a nossa base, que é a Liga Portuguesa, a Liga dos Campeões e as provas europeias… portanto a forma que nós optamos para dar a volta a isto é basear-nos nas histórias atuais: como é que as equipas reagem, o que é que os futebolistas fazem nesta fase, histórias de superação, algumas de drama e também damos noticiário social porque nesta altura é o que as pessoas mais procuram”, explicou Pedro Cunha.


O sentimento é o mesmo, desta feita na rádio. Eduardo da Silva, jornalista na editoria de desporto, nomeadamente na Bola Branca, da Rádio Renascença conta ao desPorto as alterações sofridas na redação face à escassez de conteúdo.


Neste momento estou a fazer muito pouco desporto. Eu faço rádio, dou um certo apoio às edições da Bola Branca e tenho os jogos, sou repórter nos jogos, e como nãos os há, nesse sentido fiquei sem trabalho”, começou por explicar o jovem jornalista. “Também foi suprimido o nosso grande jornal de desporto e como há menos conteúdo a equipa foi reduzida, no sentido em que grande parte de nós reforçou a editoria generalista”.


Não obstante à opinião de Pedro Cunha, apesar de num registo jornalístico diferente, Eduardo refere também as diferenças entre estar numa redação e passar, de um momento para o outro, a estar em regime de teletrabalho.


A motivação também é diferente, até porque eu estando habituado a trabalhar exclusivamente com desporto e de repente seres transportado para uma outra editoria… isto exige um período de adaptação que no fundo não existe, então tens logo que estar a trabalhar e estar a trabalhar tão bem como as pessoas que sempre fizeram as outras editorias


Com o mundo a trabalhar a meio gás, a economia tem registado grandes quebras e, se a comunicação social já vinha a atravessar grandes dificuldades financeiras nos últimos anos, esta pode ser a machadada final para muitos órgãos. Confrontados com esta possibilidade, os dois jornalistas afirmam enfrentar realidades diferentes.


No caso de Pedro Cunha, o Maisfutebol vive essencialmente de clicks, visualizações e publicidade aliados ao conteúdo meramente desportivo. Numa fase em que os campeonatos estão parados e o assunto do momento é o Covid-19, o jornalista já fala numa “fatura a pagar”.


Sei que os números lá são uma grande pancada, como se costuma dizer. Estamos a falar em 70% e com isso vai tudo atrás. O departamento comercial vende menos publicidade, há menos procura… provavelmente vai ter de haver algum tipo de reajuste na redação”, confessou o editor, explicando ainda que “o Maisfutebol é uma estrutura estável, mas não é uma estrutura poderosa com lucros financeiros exuberantes, portanto qualquer abalo é muito sentido e acredito que vamos sentir e que vamos pagar a fatura. Já estamos a pagar e vamos pagar mais”.


Já na Rádio Renascença, apesar de o número de ouvintes ser muito mais reduzido devido às restrições de circulação rodoviária, por ser um órgão generalista, a equipa do online encontra-se muito mais reforçada, o que permite assegurar os números.


A rádio tem sofrido muito, como é óbvio, porque é maioritariamente hoje ouvida nos carros e não havendo essa movimentação deixa de haver a hora de ponta tradicional que é das 7h às 8h/8h30. No entanto, o online está muito reforçado a nível de clicks e visualizações”, afirmou o jornalista. “Acho que não haverá alterações drásticas quando a situação terminar porque a Bola Branca está integrada na Renascença em geral. Acho que órgãos que sejam exclusivamente desportivos vão sofrer muito mais e isso nota-se porque os jornais estão a reduzir páginas, estão a publicar muito mais conteúdo que não tem a ver com desporto.”


Chamamos à atenção do leitor para a situação vivida no jornal desportivo A Bola que, esta quarta-feira, decretou regime de lay-off, dispensando toda a equipa da redação do Porto e mantendo, assim, apenas a de Lisboa.


Portugal, lembre-se, registou o primeiro caso de coronavírus a 2 de fevereiro e, há data da publicação deste artigo, já conta com mais de 13 mil infetados e 380 óbitos.

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